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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Casamento lésbico entre militares em Portugal

patricia loureiroA capitã Patrícia Almeida, de 27 anos, comandante do destacamento de Santarém, e a cabo Maria Dias de Carvalho vão casar-se este sábado, noticia o jornal "Correio da Manhã". É o primeiro casamento gay na história da GNR* e a primeira união lésbica registada, conhecida entre militares no Mundo.

Uma fonte oficial da GNR lembra ao jornal que o casamento entre pessoas do mesmo sexo "é um direito consagrado para qualquer cidadão". A união será no sábado, no Conservatório do Registo Civil de Lisboa. Seguido de uma festa em local que é segredo.

* A Guarda Nacional Republicana (GNR) é uma força de segurança de Portugal com natureza e organização militares, caracterizando-se como uma Força Militar de Segurança Pública.

As forças armadas são, frequentemente, um meio hostil para as mulheres e para homossexuais. Existe, seguramente, um longo caminho de discriminação percorrido e a percorrer.

A comunidade LGBT tem motivos para estar orgulhosa e predisposta a apoiar mais estas pioneiras. Para a Maria e a Patrícia, os nossos votos de felicidades e sucesso.

Fontes: CM, TVI24, DN

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Teresa e Helena - as primeiras pessoas do mesmo sexo a casarem em Portugal

teresa helena cas filhasTeresa e Helena lutam desde 2006 pelo direito de formalizarem a sua família e viram esse sonho concretizado no dia 7 de Junho de 2010 pelas 9:45.

 

A lei que permite o casamento civil entre homossexuais foi aprovada a 11 de Fevereiro de 2010 e promulgada pelo Presidente da República no passado dia 17 de Maio, Dia Internacional contra a Homofobia e a Transfobia .

Cinco dias após a publicação em Diário da República da lei número 9/2010, em 31 de Maio de 2010,  a lei entrou em vigor e o casamento entre pessoas do mesmo sexo tornou-se uma realidade em Portugal.

O conceito de casamento passou a ser entendido como “o contrato celebrado entre duas pessoas que pretendem constituir família mediante uma plena comunhão de vida, nos termos das disposições deste Código” (Ver o texto da lei no Diário da República Electrónico)

"Em nome da lei e da República Portuguesa declaro que Teresa e Helena estão unidas pelo casamento."

Foi com estas palavras da conservadora da 7.ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa que o casal de lésbicas que já namora há oito anos concretizou o seu sonho.

7 de Junho de 2010 fica é dia histórico para Portugal e de felicidade para elas, para as suas duas filhas e para tod@s @s que as apoiaram ao longo deste trajecto onde tantas vezes foram vítimas de homofobia e descriminações.

Como salientou José Sócrates, primeiro-ministro de Portugal:

“Mas, durante muitos anos, muitas pessoas lutaram por isto, sem serem compreendidas, sem serem sequer ouvidas. Esses que lutaram por isto merecem neste momento que homenageie a sua tenacidade, porque devem ser recordados como pessoas com coragem” (Fonte: ionline)

Viva as noivas.
Viva a igualdade de direitos.
Viva @s que lutaram por esse direito.
Viva @s que o vão exercer e viva também @s que optam por não o fazer.

Homoparentalidade a próxima conquista

Esta lei exclui o direito à adopção e não prevê a protecção dos direitos dos filhos destes casais, fruto de relações heterossexuais, adopção ou inseminação artificial. A correcção dessa lacuna está prevista para a próxima legislatura, se a maioria de esquerda persistir. (ver +)

Casamento de Teresa e Helena nas notícias

Diário de Notícias, Público, RTP, SIC, JN, Expresso, Le Figaro, Courrier International, Washington Post, CBS, CTV, BBC, The Asian Age, Fox News, El Comercio, El Universal, La Vanguardia, Libero, RAI, La Repubblica, Libero, O Estadão, O Globo

Lesbian couple weds in Portugal’s 1st gay marriage

Teresa Pires et Helena Paixão deviennent les premières lesbiennes mariées du Portugal,

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Casamento entre pessoas do mesmo sexo legalizado em Portugal

Hoje, 17 de Maio de 2010, Dia Internacional da Luta contra a Homofobia e Transfobia, o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi legalizado em Portugal. Depois do ter sido votado pela Assembleia da República em Fevereiro de 2010 e declarado válido pelo Tribunal Constitucional em Abril, o Presidente da Republica declarou hoje, às 20:15, a sua promulgação.

A lei entrará em vigor dentro de dias, após a sua publicação no diário da república.

Portugal é o sexto país na Europa e o oitavo do mundo que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

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Ver mais sobre a história da igualdade no casamento em CPMS.

domingo, 18 de abril de 2010

História do casamento entre homossexuais em Portugal

Um pequeno advogado de Odivelas. Duas mulheres até então anónimas que viviam em Aveiro. Esta é a história de uma acção de lobby que em Portugal abriu caminho à tese de que o casamento entre pessoas do mesmo sexo não era inconstitucional,

Por São José Almeida em O público http://jornal.publico.pt/noticia/17-04-2010/como-nasceu-o-lobby-pelo-casamento-entre-homossexuais-19211089.htm

Quando, em 2005, escreveu no seu blogue Random Precision em defesa do direito dos homossexuais a casarem-se civilmente, Luís Grave Rodrigues não sabia as consequências que aquele post teria. Nem tinha consciência que seria a sua acção como advogado que iria dar origem à criação de jurisprudência constitucional que serviria de almofada jurídica à legalização do casamento civil entre duas pessoas do mesmo sexo.
Na altura, aliás, as suas ideias foram debatidas apenas no círculo de pessoas que com ele conversavam na Net. O casamento entre homossexuais em Portugal era uma discussão quase marginal que estava limitada a alguns intelectuais e à luta das associações LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Transgénero). Estávamos, portanto, a anos-luz da realidade actual.
Há uma semana, o Tribunal Constitucional (TC) pronunciou-se sobre a lei, aprovada em Janeiro pelo Parlamento, que legaliza o casamento civil entre homossexuais. E considerou-a constitucional. Hoje, o casamento entre pessoas do mesmo sexo é irreversível.
Como é que tudo começou? Quis o acaso que uma jornalista do Jornal de Notícias ao fazer uma pesquisa na Net sobre casamento entre homossexuais fosse parar ao blogue de Luís Grave Rodrigues, 52 anos. A 7 de Dezembro de 2005, recorda o próprio, foi publicado um artigo onde se contava que havia um advogado "que queria defender quem quisesse casar-se".
Pouco depois, Grave Rodrigues foi contactado por duas lésbicas assumidas, Teresa Pires e Helena Paixão, que viviam na zona de Aveiro. Queriam oferecer-se para serem o casal que viria a personalizar a campanha que suscitaria o debate jurídico-constitucional sobre o assunto.
Nascia assim um movimento que envolveu associações LGBT, um conjunto de juristas e especialistas da academia. E que funcionou como pressão sobre os partidos políticos. Esta é a história de uma acção de lobby político. Bem sucedida.

"Sou maluco"

Foi a filha de Helena, Marisa, hoje com 16 anos, que leu o artigo do Jornal de Notícias e que tratou de arranjar o telefone de Luís Grave Rodrigues. "Ela sabia que o nosso sonho era casar", recorda Teresa Paixão, 33 anos.
O primeiro encontro entre o advogado e as duas clientes foi no Hotel Íbis da José Malhoa, em Lisboa, num dia em que Teresa Pires foi visitar a filha bebé que vivia em Almada com a avó - à época, Teresa estava a divorciar-se e a lutar pela tutela da criança. Acabou por consegui-la e Beatriz, que tem hoje 10 anos, vive, há um ano e meio, com as duas mães.
"Perguntei-lhes se eram malucas por quererem fazer isto, elas disseram que sim e eu disse: "Então vamos a isto, que eu também sou maluco"", recorda o advogado. E foram.
Tanto Teresa e Helena, actualmente com 39 anos, como Luís garantem que os riscos foram clarificados de parte a parte. O advogado explicou que ia envolver a comunicação social, que o processo passaria por uma série de fases e que haveria desgaste e impacto público. "Ainda as alertei para o que iriam perder, mas elas responderam: "Prejudicial? Há dias, quando íamos a passar, o jardineiro da igreja atirou-nos água, pior não há.""

Teresa e Helena
É certo que nem Luís nem Teresa e Helena previam o efeito avassalador que a decisão de irem tentar casar-se na 7.ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa, no dia 1 de Fevereiro de 2006, teria sobre a vida das duas. "O Luís Grave explicou tudo sempre, o processo jurídico, que ia convocar a comunicação social... E nós sempre dizemos que se era para entrar nisto, era para ir até ao fim, até ao TC e ao Tribunal Europeu", conta Helena. Mas admite: "Na conservatória, quando vimos os jornalistas é que começámos a perceber. Tremíamos como canas verdes. Nunca pensámos que o impacto seria tão grande, nem mediaticamente, nem nas nossas vidas", assume Helena. Teresa desabafa: "Nós queríamos casarmo-nos, o resto, a luta o impacto, não me ocorreu, por isso ainda hoje digo que não sou nenhuma bandeira."

Com a casa às costas

O que é facto é que quando voltaram a Aveiro, depois de o caso estoirar na comunicação social, esperava-as o primeiro episódio de uma campanha homofóbica a que dizem não deixaram de estar sujeitas. "Depois de Lisboa, quando chegámos a Aveiro, tínhamos uma coroa de flores à porta e a GNR ficou a vigiar-nos. Isto porque um jornal publicou o nome da terra onde vivíamos", lembra Teresa.
Deixaram Aveiro, foram para Lisboa, arrendaram casas, mas acabaram sempre por ter de sair. "Chegaram a viver em minha casa uns tempos e quando foram embora, não interessa para onde, a Marisa ficou comigo e com o meu filho uns tempos", relata a cineasta e activista das Panteras Rosa, Raquel Freire.
Desde então não têm parado. Trabalhavam por conta própria, deixaram de ter clientes. Emprego? O máximo que conseguiram, contam as duas, foi ficar 15 dias seguidos no mesmo sítio - quando Helena trabalhou numa bomba de gasolina. "Quando percebem quem somos, despedem-nos."
Têm vivido da solidariedade de amigos e de activistas dos movimentos LGBT, saltam de terra em terra, ficam sempre pouco tempo. Agora, vivem algures no Alentejo - não quiseram revelar a morada exacta ao P2. A última mudança, há cerca de um mês e meio, só conseguiu ser feita através de uma recolha de fundos no Facebook.
Sobrevivem com o rendimento social de inserção. Helena recebe 155 euros. Teresa outros 180, mais uma pensão de alimentos de Beatriz de cem euros "que nem sempre vem", nas palavras de Helena. Um total de 450 euros para duas mulheres e duas crianças.
Mas não se arrependem e garantem que assim que a lei entrar em vigor querem casar-se na mesma conservatória. "Querem lá estar no dia em que a lei entrar em vigor às 9h30 da manhã", precisa Grave Rodrigues com um sorriso.

O conservador amigo

"Percebi, desde o início, que podia e ia criar jurisprudência", conta o advogado. "Fi-lo porque o assunto era do ponto de vista profissional desafiante e estava convicto de que tinha razão, por isso me envolvi e as envolvi a elas." E desabafa: "Até porque um processo destes custou-me dinheiro."
Com a luta a chegar ao fim, Grave Rodrigues aceita revelar como conduziu o processo. "Sabia que era um pequeno advogado de Odivelas a lutar contra o TC, por isso sabia que só com a comunicação social do meu lado a falar do assunto faria com que os juízes-conselheiros olhassem para o meu pedido."
Mas a táctica de combate não ficou por aí. "Decidi também que deixava de falar em homossexualidade e que falava de pessoas, da Teresa e da Helena, e isso personalizou a questão e chamou a atenção."
Já a razão por que escolheu a 7.ª Conservatória é simples: "Sou amigo do conservador e ele aceitou aturar o assunto e o circo mediático." Quanto ao despacho negativo que acabou por dar, recusando casar Teresa e Helena, Grave Rodrigues limita-se a dizer: "Era a opinião dele." E explica por que foi necessário a exposição pública do casal e a ida à conservatória naquele dia 1 de Fevereiro de 2006. "Eu sabia que para levar o processo até ao Tribunal da Relação, ao Supremo e ao Constitucional tinha que ter algo de que recorrer. Por isso, criei uma situação que provocou aquele despacho do conservador para poder recorrer dele com base na inconstitucionalidade do artigo 1577.º do Código Civil" - que basicamente definia o casamento como "um contrato celebrado entre duas pessoas de sexo diferente".
A recusa do conservador foi confirmada pelo Cível a 14 de Março. Seguiu-se o recurso para o Tribunal da Relação de Lisboa (21 de Abril) e, já em Fevereiro de 2007, para o Supremo Tribunal de Justiça. A 25 de Maio de 2007, chega a vez do esperado recurso para o TC - que se pronuncia, por fim, a 9 de Julho de 2009.
Três dos cinco juízes-conselheiros que analisam o assunto defendem que o reconhecimento do direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo não é obrigatório pela Constituição, como Luís Grave sustentava. Mas todos estão de acordo em relação a um ponto: também não é inconstitucional. Competia ao poder político decidir e legislar sobre o assunto.
Ciente que mesmo que tivesse ganho a sua acção o problema não ficaria resolvido - só ao terceiro acórdão sobre casos concretos é que seria obrigatória a mudança da lei -, Luís Grave Rodrigues afirma que o voto favorável de dois dos cinco juízes-conselheiros daquela secção do TC mostrou que a sua tese de que Teresa e Helena tinha o direito a casar-se "não era um disparate".
Grave Rodrigues lembra que passou 30 dias, "de 19 de Setembro a 19 de Outubro de 2007", ao computador em casa, a trabalhar nas alegações que entregou ao TC antes do acórdão final: "O meu sócio ficou sozinho com o escritório e trabalhei 20 horas por dia. Ia três ou quatro horas à cama, não por sono, mas por que sentia areia nos olhos." Mas relativiza: "Quem de facto sentiu isto na pele foi a Teresa e a Helena. Se alguma contribuição eu dei, foi conseguir essa abertura jurídico-constitucional para o processo legislativo que é dado por aquele acórdão do TC."
De facto, a 8 de Janeiro deste ano, o Governo apresenta e aprova a proposta de lei que consagra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. O Presidente da República pede depois a fiscalização preventiva da lei. E quando o processo chega ao TC já existia então um acórdão que afirmava, preto no branco, que a legalização era uma decisão política e não era inconstitucional.
Insistindo em não ficar sozinho na fotografia daquilo que considera uma vitória, Grave Rodrigues sublinha também a importância da ajuda que recebeu de especialistas do meio académico, bem como de activistas LGBT. Isto porque, quando, há cerca de três anos, anunciou que ia para o TC, foi contactado pelo dirigente da ILGA Paulo Corte-Real, que lhe perguntou se queria pareceres pró-bono.
"Encontrei-me com um grupo na Lusitânia para almoçar onde estavam os especialistas que deram pareceres [Carlos Pamplona Corte-Real, Susana Brasil de Brito, Pedro Múrias, Margarida Lima Rego, Luís Duarte d"Almeida, Isabel Mayer Moreira, Miguel Vale de Almeida] e outros que ajudaram a fazer o recurso, alguns dos quais ainda hoje não querem aparecer publicamente. O parecer de Júlio Machado Vaz foi o único que pedi por telefone", conta. "Sentei-me, expliquei-lhes o que estava a escrever e pedi-lhes: "Ajudem-me." Para que fosse útil, para que fosse eficaz, não podia entregar qualquer porcaria no TC. E pessoas desta categoria deram-me os pareceres que serviram de pilar à construção das alegações, deram-me a visão de pormenor e de conjunto."
Nesse almoço, e autora de um desses pareceres que fizeram história, esteve Isabel Mayer Moreira, professora de Direito Constitucional da Faculdade de Direito de Lisboa. "Eu, nas minhas aulas e nos colóquios, defendia esta minha posição, não tinha era acesso ao microfone. Quando me foi dada a oportunidade de fazer um parecer pró-bono, não hesitei, evidentemente sabendo que teria repercussões mediáticas." Estava perfeitamente consciente de que participava numa campanha para criar o respaldo constitucional ao avanço do processo político e legislativo.
"Tinha a convicção de que o TC não acolheria o meu parecer, que os juízes-conselheiros não diriam todos que é obrigatório reconhecer o direito ao casamento, que o TC não iria nesse caminho maximalista, mas sabia que o acórdão calaria a voz dos católicos que diziam que era inconstitucional." E remata: "Sei que contribuí para tornar claro que não era inconstitucional. Claro que não resolvi o problema daqueles dois seres humanos, mas a acção deu consistência jurídica à posição dos partidos." E, "quando José Sócrates anunciou que ia colocar esta questão no programa" de governo, sentiu que "depois de mais de uma década de luta o casamento entre pessoas do mesmo sexo ia ser possível em Portugal".

Associações desconfiaram

Além dos especialistas do meio académico, esta luta ganhou também o apoio das associações LGBT. Mas estas, ao princípio, olharam desconfiadas para Teresa Pires e Helena Paixão, bem como para a iniciativa de Grave Rodrigues.
Paulo Corte-Real, hoje presidente da ILGA, e na altura dirigente, afirma que a associação sabia que "o impacto iria ser importante". Mas esclarece que as associações não estavam muito entusiasmadas com a ideia inicialmente, porque consideravam que, "para lutar contra o preconceito homofóbico, era mais eficaz que o processo fosse feito por via política e não por via judicial". Afinal, conclui agora, os dois processos foram complementares e esta foi uma acção muito importante e teve impacto muito positivo".
Sérgio Vitorino, activista das Panteras Rosas, embora reconhecendo o mérito e o sucesso da acção, não esconde que não concordou com ela: "Sem dúvida que contribuiu para resolver a situação. Mas no início houve um momento em que se achou que seria prejudicial." E explica que então "havia pessoas muito envolvidas na luta pelo casamento que defenderam que elas deviam desistir".
Apesar de não ter sido apoiante da acção, Sérgio Vitorino percebeu desde cedo o problema humano que ali se colocava. E considera que o casal podia ter tido mais apoio, já que "a solidariedade inicial não durou muito" e elas acabaram por ser "abandonadas à sua sorte". Mas à distância reconhece que o que mais o surpreendeu "foi serem pessoas tão vulneráveis materialmente". E acrescenta: "Olhando para trás, percebo que tinha de ser assim. Se fosse um activista ou alguém com maior estatuto, teria mais a perder."
Até 28 deste mês Cavaco Silva deverá promulgar a nova lei. Ou vetá-la. Se a opção for o veto, o diploma volta ao Parlamento para ser de novo aprovado, após o que a assinatura pelo Presidente é obrigatória.

A Teresa e a Helena continuam a sua luta diária contra a homofobia. Podiam não ter muito para perder mas para quem tem pouco, o pouco que perde tem um grande impacto.

Junta-te à sua causa no facebook e continua a apoiar. http://www.causes.com/causes/444131

 

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Tribunal Constitucional aprova o casamento entre pessoas do mesmo sexo em Portugal

O diploma que abre caminho ao casamento entre pessoas do mesmo sexo em Portugal recebeu a aprovação do Tribunal Constitucional, que não encontrou impedimentos nos quatro artigos submetidos a fiscalização preventiva pelo Presidente da República. Cavaco Silva tem até ao final de Abril para decidir se promulga ou veta o texto agora considerado constitucional. Caso opte pelo veto político, será a primeira vez que Cavaco Silva 'chumba' de imediato um diploma considerando constitucional.

ba_gaywed_01_lm Acórdão aprova diploma do casamento homossexual

A análise foi feita na sequência do pedido de fiscalização preventiva do Presidente da República a quatro dos cinco artigos do diploma aprovado em Fevereiro pelo Parlamento e que altera o Código Civil para que possa ser possível o casamento homossexual. Cavaco Silva deixou à margem do requerimento o artigo que impede a adopção por casais homossexuais.

De acordo com declarações do presidente do Tribunal Constitucional, dos treze juízes conselheiros, apenas dois votaram contra. Segundo Rui Moura Ramos, entre os onze juízes conselheiros do Palácio Ratton que votaram a favor, três consideraram obrigatório o reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo, enquanto os restantes oito julgam que a Constituição não obriga nem o proíbe.

O Presidente tem até ao final de Abril para tomar uma decisão sobre o diploma, podendo optar pela promulgação ou pelo veto político. O prazo é definido pelo artigo 136 da Constituição da República: "No prazo de vinte dias contados da recepção de qualquer decreto da Assembleia da República para ser promulgado como lei, ou da publicação da decisão do Tribunal Constitucional que não se pronuncie pela inconstitucionalidade de norma dele constante, deve o Presidente da República promulgá-lo ou exercer direito de veto, solicitando nova apreciação do diploma em mensagem fundamentada".

Casamento é "conceito aberto"

O Tribunal Constitucional sustenta que "a extensão do casamento a pessoas do mesmo sexo" não contradiz a protecção do conceito de família enquanto "elemento fundamental da sociedade". A iniciativa legislativa para a legalização do casamento homossexual, estabelece o Tribunal, "não viola a garantia constitucional de casamento": "A mesma não tem por efeito denegar a qualquer pessoa ou restringir o direito fundamental a contrair (ou a não contrair) casamento".

O Tribunal considera, assim, que "o núcleo essencial da garantia constitucional do casamento não é franqueado pelo abandono da regra da diversidade de sexos entre os cônjuges" e que "a extensão do casamento a pessoas do mesmo sexo não contende com o reconhecimento e protecção da família como elemento fundamental da sociedade".

Uma nota difundida após a leitura do acórdão ressalva que os juízes do Palácio Ratton tiveram em consideração a tese da representação do casamento heterossexual na letra da Lei Fundamental. Porém, o Tribunal sublinha que "pode também seguramente concluir-se que não teve qualquer opção no sentido de proibir a evolução da instituição".

A Constituição, propugna o acórdão, não estabelece o perfil dos elementos constitutivos da instituição. Por outro lado, lê-se na nota, o casamento é "um conceito aberto, que admite não só diversas conformações legislativas, mas também diversas concepções políticas, éticas ou sociais, cabendo ao legislador ordinário a tarefa de, em cada momento histórico, apreender e verter no ordenamento aquilo que nesse momento corresponda às concepções dominantes".

Diploma aprovado no Parlamento em Fevereiro

A proposta de lei que legaliza o casamento homossexual foi aprovada pela Assembleia da República, em votação final global, a 11 de Fevereiro. PS, Bloco de Esquerda, PCP e Partido Ecologista "Os Verdes" votaram a favor do diploma. Seis deputados sociais-democratas abstiveram-se. O CDS-PP e a maioria do grupo parlamentar do PSD votaram contra, à semelhança de duas deputadas independentes eleitas nas listas do PS.

O diploma retira do Código Civil a expressão «de sexo diferente» na definição de casamento.

«Casamento é o contrato celebrado entre duas pessoas que pretendem constituir família mediante uma plena comunhão de vida», é a redacção aprovada.

No entanto, o diploma impede a possibilidade de adopção por pessoas casadas do mesmo sexo.

«As alterações introduzidas pela presente lei não implicam a admissibilidade legal da adopção, em qualquer das suas modalidades, por pessoas casadas do mesmo sexo», prevê o artigo da proposta do Governo.

Fontes:  Diário IOL RTP TC

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Tribunal Constitucional dará luz verde a casamento 'gay' em Portugal

cas lgbt

Juízes do Tribunal Constitucional consideram que a alteração da Assembleia ao Código Civil é legal.

O Tribunal Constitucional prepara-se para dar luz verde à lei que torna possível o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A decisão, que responde (pela negativa) às reservas colocadas pelo Presidente da República, deverá ser anunciada ainda esta semana.

Cavaco Silva enviou para o Tribunal Constitucional o diploma aprovado no Parlamento (tendo por base uma proposta do Governo, com os votos favoráveis da esquerda e contrários da direita) no passado dia 13 de Março. Não explicou as suas reservas, deixando apenas claro que requereria a fiscalização da inconstitucionalidade de todos os artigos do diploma, menos daquele que mais dúvidas de constitucionalidade suscitava: o que impedirá um casal de pessoas do mesmo sexo de se candidatar à adopção de crianças.

Segundo soube o DN, o TC não deverá abordar esta questão, nem mesmo de forma velada. Sublinhará que a Constituição portuguesa desde 2004 expressamente proíbe discriminações tendo por base a orientação sexual (artº 13, nº 2). E que, alterados os artigos do Código Civil que impediam duas pessoas do mesmo sexo de se casarem - o que a proposta aprovada na AR fez - então nada constitucionalmente impede que haja luz verde ao casamento gay.

Esta decisão do TC é, aliás, consentânea com o acórdão do mesmo tribunal que, em Agosto de 2009, apreciou a inconstitucionalidade da recusa de uma conservatória de Lisboa a casar duas mulheres. Os cinco juízes não se pronunciaram a favor da pretensão de Helena Paixão e Teresa Pires, que tentaram casar em Fevereiro de 2006 e recorreram da recusa para os tribunais. Mas frisaram: "A recepção constitucional do conceito histórico de casamento como união entre duas pessoas de sexo diferente (...) não permite retirar da Constituição um reconhecimento directo e obrigatório dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo, sem, todavia, proibir necessariamente o legislador de proceder ao seu reconhecimento ou à sua equiparação aos casamentos."

Uma posição contrária à do parecer de Freitas do Amaral, do qual o Presidente fez acompanhar o seu pedido de fiscalização preventiva de constitucionalidade da lei. Neste, segundo Freitas explicou ao DN, defendia-se que para se legalizar o casamento entre pessoas teria se alterar primeiro a Constituição, já que no seu entender a lei fundamental encerra um conceito próprio de casamento que aponta de forma directa para o casamento tradicional", que seria o casamento monogâmico e heterossexual. A única forma de se consagrar uma legalização de uma união reforçada entre pessoas do mesmo sexo dentro dos limites da Constituição seria, para Freitas, não lhe chamar "casamento". Ou seja, a solução que o PSD propôs, a "união civil registada" (equivalente a uma união de facto com direitos reforçados).

Entre os constitucionalistas, a posição de Freitas tem respaldo nas de Jorge Miranda e Rui Medeiros. Gomes Canotilho e Vital Moreira sempre disseram que a Constituição permitia a alteração da lei. E, já em 2003, o então provedor de Justiça Nascimento Rodrigues, ao responder a um pedido de apreciação da constitucionalidade do artigo 1577º do Código Civil (que especifica dever o casamento celebrar-se entre pessoas de sexo diferente), se manifestara no sentido agora viabilizado no TC: "Não proíbe a Constituição a alteração desta lei ordinária, designadamente (...) no sentido de não ser limitada a celebração do casamento a pessoas de sexos diferentes."

por JOÃO PEDRO HENRIQUES em http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1537737

Cenários

E agora Sr. Presidente da Republica Aníbal Cavaco Silva, temos aprovação ou veta a consagração do direito de celebração do casamento a pessoas do mesmo sexo?

Apesar de Cavaco da Silva ser o primeiro presidente de direita eleito após o fim da ditadura Salazarista em 25 de Abril 1974, poucos acreditam que ele vá vetar a lei,  considerando a ampla maioria favorável já obtida na Assembleia legislativa portuguesa, formada pela esquerda e pelos verdes. Prevalecem no entanto questões morais e religiosas que o Presidente poderá valorizar.

Após a publicação da decisão do Tribunal Constitucional o Presidente da República, prevista para esta semana,  tem 20 dias para tomar uma decisão sobre se veta politicamente, manifestando desta forma uma oposição política ao conteúdo ou oportunidade desse diploma, ou se promulga a lei. Se exercer o direito de veto, solicitará nova apreciação do diploma pela Assembleia da Republica, em mensagem fundamentada, e a lei voltará ao parlamento,  que poderá abandonar o diploma ou de lhe inserir alterações no sentido proposto pelo Presidente da República ou, apostamos nesta hipótese, a Assembleia da República pode ultrapassar o veto político - ficando o Presidente da República obrigado a promulgar, no prazo de 8 dias - caso o diploma seja novamente aprovado, sem alterações,  pela  maioria absoluta dos deputados.

O nosso agradecimento a Teresa Pires e Helena Paixão pela generosidade da vossa importante acção em prol da mudança e a tod@s os activistas desta causa.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Teóloga inglesa concorda com Elton John: "Cristo era gay"

Segundo a teóloga, ser gay é mais difícil do que ser heterossexual

Deus criou pessoas e para elas não definiu orientação sexual. Portanto, todas devem poder casar-se, se assim o desejarem, diz a teóloga feminista Myra Poole(*) que, porém, vai mais longe: "Acredito que Cristo era gay."

Em entrevista à agência Lusa, por ocasião de uma conferência em Lisboa, para a qual foi convidada pelo grupo português do movimento internacional Nós Somos Igreja, a católica inglesa vinca: "Se as pessoas são homossexuais, é porque Deus as fez assim, está certo. Quem sou eu para dizer que Deus fez toda a gente heterossexual? Deus pode fazer o que quiser."

"Concordo com [o músico] Elton John. Penso que Cristo era gay. Porque era da natureza de Cristo escolher aquilo que seria mais difícil quando se tornou humano. E ser gay é, para um homem, uma das orientações mais difíceis de assumir", explica Myra Poole, conhecida pelas críticas ao Papado e à hierarquia eclesiástica.

Ativista pela ordenação de mulheres há mais de 20 anos e há mais de 50 integrada na congregação de irmãs Notre Dame de Namur, fundada em França, Myra Poole diz que a avançada idade lhe permite dizer o que pensa: "Já não me podem tocar, no passado já me queimaram na fogueira. É preciso pessoas na linha da frente, para dar coragem a todas as outras."

Myra Poole começou por ser anglicana, devotando-se ao catolicismo já na universidade, e dedicou-se à educação de jovens mulheres gerindo duas escolas.

Chegou a ser ameaçada de expulsão durante a Conferência Mundial de Ordenação das Mulheres, em 2001 (Dublin). Foi, recorda, um momento "catalisador" para "todas as mulheres da Igreja Católica", porque revelou que "é possível contornar o poder do Vaticano".

"Há coisas tão boas na Igreja que têm sido destruídas pela forma como a liderança tem agido", sustenta. "Quanto mais olho para o atual Papa, mais sinto pena dele. Está preso numa cultura que não lhe fez bem, nem a ninguém no Vaticano, e também não fez bem às mulheres e aos homens", considera.

Defensora da ordenação de mulheres - "enquanto as mulheres forem cidadãs de segunda classe, podemos tratá-las como objetos, violá-las, violentá-las e mantê-las na pobreza" -, Myra Poole sublinha que não se pode falar em teologia "sem dois adjetivos": "Masculina e patriarcal".

Assume-se como teóloga feminista cristã e o 'feminista' não está no centro por acaso: "Sou uma teóloga feminista - não se pode ser uma coisa sem a outra, porque o feminismo inclui mulheres e homens. O que o feminismo defende é que as mulheres têm o direito de ser consideradas totalmente humanas e não de segunda classe".

Nesse sentido, embora defenda que os padres se possam casar, opõe-se a que tal aconteça antes da ordenação de mulheres. "Ao longo da História, do Império Romano à atualidade, as mulheres nunca foram incluídas na liturgia e por isso praticaram-na na periferia", lembra, referindo que nada mudou muito: "No século XXI, eles ainda pensam que somos bruxas! E além disso as bruxas podem ser boas ou más. É extraordinário!"

Mas, reconhece, as mulheres "são mais fracas" no "entendimento da obediência". "As mulheres têm sido demasiado obedientes aos homens da Igreja, quando a obediência matura é ao Espírito Santo. Temos de discernir o que é bom e mau em qualquer autoridade. Os homens têm dominado as congregações por demasiado tempo. E o prelado. As mulheres precisam de ser libertar, mas vai levar muito tempo", antecipa.

por Agência Lusa, Publicado em 29 de Março de 2010

http://www.ionline.pt/conteudo/53081-teologa-inglesa-concorda-com-elton-john-cristo-era-gay

* Myra Poole é uma religiosa da congregação de Notre Dame de Namur, tendo sido quase forçada a abandonar a ordem em 2001 por causa da sua participação na Conferência Mundial de Ordenação das Mulheres, em Dublin.

MYRA2 Dorothea McEwan, Myra Poole and Helen Blackburn

Professora de história e ex-directora de uma escola secundária dedicou os últimos vinte anos à teologia e espiritualidade feministas, tendo trabalhado sobre temas relativos às mulheres na Igreja Católica, nomeadamente na ordenação de mulheres.

Autora de vários artigos e de dois livros, um sobre o carisma da sua congregação, outro em co-autoria com Dorothea McEwan, intitulado "Tornando Novas Todas as Coisas: a ordenação das mulheres como catalisadora de mudança na Igreja Católica".

domingo, 28 de fevereiro de 2010

As famílias verdadeiras (nazis e religiosos juntos em manifestação)

padre-skin Há algo de fascista em ir para a rua lutar não pelos nossos direitos, mas contra os direitos dos outros.

E definitivamente houve algo de fascista na manifestação lisboeta pela “família verdadeira”. PNR? Acção Nacional? Bandeiras negras? Acusar homossexuais da “destruição sistemática da sociedade”? Não soa a nada? Esqueceram-se como Hitler tratou do assunto? E não será isto anticonstitucional? ´
Mas não sei o que é pior, se a organização ter acolhido um punhado de neonazis, se aqueles milhares de pais extremosos com filhos às cavalitas, certamente convencidos de que não estavam a fazer mal a ninguém, deus os livre.
Pois estavam, pois estão. Como lembra aquele poema da Sophia sobre as pessoas sensíveis que não matam galinhas mas comem galinhas.
Impedir que os outros tenham direito ao que nós temos é fazer o bem? Nem toda a gente crê na vida eterna. Muita gente corre contra a morte sabendo que vai perder. Por isso é que Larry David defende no último filme de Woody Allen whatever Works. Tudo o que nos der um pouco de alívio, de confiança, de alegria. E se esse tudo inclui o casamento, que seja para todos.
Pergunto eu então às tão autoproclamadas famílias verdadeiras: quem vos dá o direito de dizer à sociedade que ela seja o que já não é? Quem vos dá o direito de dizer à mãe de um homossexual que a família dela não é verdadeira? Deram-se ao trabalho de pensar no que mães, pais, filhos ou avós de homossexuais sentem ao ler os vossos cartazes? Não vêem a arrogância disto? A violência?

Será fazer o bem achar que vocês são os verdadeiros e os outros são falsos? A família verdadeira é aquela que se mantém à custa de mentira, traição neurose? Não será, antes e finalmente, amor, clareza, coragem? Não serão famílias verdadeiras todas aquelas que querem, e conseguem, estar juntas?
A melhor herança do Novo Testamento é amor, amor e amor. Então dediquem-se a fazer o amor, espalhem todos esses sentimentos cristãos e deixem viver os que querem viver. Olhem para os vossos filhos, para os vossos pais, para as crianças abandonadas, para quem tem fome, frio, medo e está doente. Dêem-lhes todo esse tempo investido na promoção da suposta família verdadeira. E parem de atrapalhar o trânsito com assuntos que não são da vossa conta.

Eu não quero decidir em referendo o que dois adultos legalmente responsáveis fazem um com o outro porque não é da minha conta. E tenho as minhas ideias sobre o que os arruaceiros, gente que humilha, insulta e exclui sob protecção policial, e se propõe consumir dinheiros públicos a decidir ávida dos outros.
Sim, creiam, os homossexuais vão casar e ter filhos, é o futuro. Ninguém discriminado por raça, religião ou orientação sexual, lembram-se? Talvez os vossos filhos vos possam ensinar.

Texto de Alexandra Lucas Coelho

Jornal Público, secção P2. Sexta-feira 26 de Fevereiro de 2010

Imagem de Pedro Vieira em arrastao.org

 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Casamento gay: proposta de lei aprovada na especialidade

lezkisspt A proposta de lei que legaliza o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo foi aprovada, esta terça-feira, na especialidade sem alterações, com a direita e o PCP a manter as dúvidas sobre a aplicação da proibição da adopção. O diploma, que deve subir a votação final global na próxima quinta-feira, retira do Código Civil a expressão «de sexo diferente» na definição de casamento.

«Casamento é o contrato celebrado entre duas pessoas que pretendem constituir família mediante uma plena comunhão de vida», é a redacção aprovada.

Os deputados da comissão parlamentar de Assuntos Constitucionais chumbaram a única proposta de alteração, entregue pelo Bloco de Esquerda, que pretendia a eliminação do artigo que proíbe a adopção aos casais homossexuais. «As alterações introduzidas pela presente lei não implicam a admissibilidade legal da adopção, em qualquer das suas modalidades, por pessoas casadas do mesmo sexo», prevê o artigo da proposta do Governo, aprovado com os votos favoráveis do PS, contra o BE e do PEV, e as abstenções do PSD, do CDS-PP e do PCP.

O deputado do PCP João Oliveira justificou a abstenção afirmando que apesar de «acompanhar a intenção da norma». Os comunistas temem que «seja fonte de dúvidas e dificuldades na sua interpretação», quando for aplicada.

Do CDS-PP, o deputado Nuno Magalhães explicou que o seu partido é contra todos os artigos deste diploma, pelo que a abstenção foi um voto «meramente pragmático». Ou seja, se votasse contra, o artigo poderia ser chumbado e assim a lei passaria sem proibir a adopção aos casais homossexuais.

O deputado independente eleito pelo PS Miguel Vale de Almeida, activista da comunidade LGBT e o primeiro parlamentar assumidamente homossexual, assinalou que votou a favor da proibição do acesso à adopção por separar a conjugalidade da parentalidade, apesar da sua «convicção profunda» de que os casais do mesmo sexo devem ter acesso a «todas as formas de parentalidade».
Para a deputada do PSD Teresa Morais, a lei contém «erros e incongruências» que se levantarão na aplicação prática do diploma. O PSD também se absteve no artigo que proíbe a adopção com o «objectivo de continuar a vedar a adopção aos casais do mesmo sexo».

Fonte: http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/casamento-gay-homossexuais-homosexual-tvi24-parlamento/1138305-4071.html

Será agora enviada para o Presidente da República para este decidir sobre a sua promulgação. O Presidente pode então promulgar, vetar politicamente ou enviar para fiscalização prévia de constitucionalidade pelo Tribunal Constitucional.

Enquanto esperamos podemos:

  1. Assinar a petição Movimento A Favor do Casamento Entre Pessoas Do Mesmo sexo(Eu Assino)
    Lets do it guys...its time to demonstrate that we have the same rights as human beings. Please sign the petition. http://www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=P2010N1031
  2. Acompanhar no facebook grupo Petição Petição Movimento A Favor do Casamento Entre Pessoas Do Mesmo Sexo.
  3. …

A ILGA Portugal lança campanha publicitária anti-homofobia a nível nacional

mupi2010peq A ILGA Portugal – Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual e Transgénero lança hoje a sua segunda campanha publicitária anti-homofobia a nível nacional, executada em regime pro bono pela Lowe.

No momento em que o Parlamento português aprova a igualdade no acesso ao casamento e coloca Portugal como um exemplo a seguir em termos mundiais na luta contra a discriminação, a campanha vem também marcar que é tempo de reconhecer que lésbicas e gays são mães e pais, filhas e filhos, irmãs e irmãos, vizinhas e vizinhos, amigas e amigos, familiares ou colegas - e que é tempo de deixar de dizer "eles" ou "elas" e de finalmente passarmos todas e todos a dizer "nós".
A campanha é composta por um spot de televisão (30’’) que começará a ser exibido em vários canais, tendo ainda o apoio da SIC Esperança; cartazes de grande formato, com o apoio do Mecanismo Financeiro do Espaço Económico Europeu e com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa na sua divulgação, que se estenderá subsequentemente a todo o país; e um anúncio para cinema e Internet (60”) que estará disponível online.

Pai na TV, mãe na rua

No facebook o Caleidoscópio Lgbt fez uma pergunta pertinente:

“Óptima campanha! Vai haver uma versão do spot televisivo com uma mãe lésbica? "

A resposta da ILGA Portugal foi:

“Caleidoscópio, não, os custos de produção e de divulgação de 2 spots seriam incomportáveis para uma campanha pro-bono, daí a opção pai na tv, mãe na rua :)”

O meu comentário é, resumidamente, “:(“

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Portugal já faz parte da rede Rainbow Rose

anna_paola_concia_e_jean_leonard_touadi_contro_il_razzismo1 Portugal já faz parte da Rainbow Rose, rede que agrega 15 partidos socialistas europeus no combate à discriminação e que tem feito pressão para colocar na agenda política temas como os direitos de lésbicas, gays, bissexuais e transgéneros.

O braço nacional da Rainbow Rose foi apresentado na segunda feira à noite, no Chapitô, em Lisboa, e foi apadrinhado pelas deputadas Anna Paola Concia, pelo Partido Democrático Italiano, e Ana Catarina Mendes, pelo Partido Socialista português, e também pelo ativista Michael Liebflinger, membro do Soho (Áustria) e do Comité Executivo da Rainbow Rose europeia.

Segundo explicou à Lusa Gonçalo Clemente Silva, da Rainbow Rose Portugal, o projeto - que "já vinha sendo pensado há muito tempo" mas que ganhou força com a aprovação, na generalidade, no Parlamento, da lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo - assenta na "troca de experiências" entre organizações, não necessariamente partidos, que partilham o mesmo espectro político: o "socialismo democrático" e uma "visão progressista da sociedade".

É sob esse prisma que a Rainbow Rose Portugal está já a estudar os direitos à igualdade e à não discriminação consagrados nos artigos 10.º e 19.º do Tratado de Lisboa, relacionados com sexo, raça ou origem étnica, religião ou crença, deficiência, idade e orientação sexual ou identidade de género.

Anna Paola Concia, a primeira deputada italiana assumidamente lésbica, aproveitou a ocasião para exaltar o "momento histórico" vivido em Portugal desde a aprovação do casamento homossexual, que, segundo ela, colocou o país "no centro da modernidade".

"Os partidos socialistas europeus têm em comum muitas, rr logomuitas coisas: uma ideia de sociedade, uma ideia de futuro, uma ideia de igualdade. O pensamento mais importante é o de que os direitos civis e os direitos sociais devem ser abordados conjuntamente, representam juntos um novo conceito de sociedade", resumiu Anna Paola Concia, em entrevista à agência Lusa.

A deputada italiana adiantou ainda que pretende lançar uma associação que coloque em rede os parlamentares europeus assumidamente gays e lésbicas, ideia que partilhou, na sua deslocação a Lisboa, com Miguel Vale de Almeida, homossexual assumido e deputado independente eleito pelo PS.

Fonte Lusa e http://www.ionline.pt/conteudo/45916-portugal-adere-rede-que-agrega-partidos-socialistas-europeus-contra-discriminacao

Ler + em http://www.rainbowrose.eu/

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Orgulhosamente S.Ó.S acção da comunidade LGBT

teresa_helena

“ORGULHOSAMENTE S.Ó.S” é uma reportagem oportuna e inédita. Numa altura em que o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi aprovado na Assembleia da República, a RTP foi saber o que aconteceu ao primeiro e até agora único casal de lésbicas, publicamente, assumido – Teresa Pires e Helena Paixão.

Em 2006, Teresa e Helena desafiaram a justiça ao tentar casar pelo Registo Civil, numa Conservatória em Lisboa. A ousadia chamou jornalistas nacionais e internacionais. Mas a partir desse dia, a vida destas duas mulheres nunca mais foi a mesma.

Teresa e Helena têm sido discriminadas de tal forma, ao ponto de passarem fome.

“ORGULHOSAMENTE S.Ó.S” é um retrato sentido e um trabalho que suscita uma reflexão: estarão os portugueses preparados para receber estes novos casais?

Pergunto-me eu se a comunidade LGBT está preparada para suportar os custos da visibilidade que se anuncia.

Vou ser muito pouco politicamente correcta mas confrangi-me ao ouvir as afirmações dos representantes das associações LGBT portuguesas sobre o apoio a esta família.

Colocou muito acertadamente o dedo na ferida a jornalista quando afirmou que eram várias vezes discriminadas: lésbicas, mulheres, pobres, com baixo nível de educação, Teresa e Helena não têm uma rede de apoio que lhes permita superar as dificuldades que atingiram tantos de nós.

Em 2006 deram~lhes uns peixes (uma festa para angariar fundos, uma conta de solidariedade) mas quem as pode ensinar a pescar?

Agora que está na altura colocarmos na nossa declaração de IRS a instituição para a qual queremos contribuir com 0,5% do nosso IRS cobrado, pergunto qual a instituição de apoio social aos cidadãos LGBT. Conhecem alguma? Publiquem o NIPC por favor.

“ORGULHOSAMENTE S.Ó.S” é uma reportagem da jornalista Mafalda Gameiro, com imagem de João Martins, edição de imagem de Guilherme Brízido e produção de Amélia Gomes Ferreira.  Link para a reportagem (“Linha da frente” episódio 15)

Um pai e duas mães: novo modelo de filiação reconhecido no Canadá

um pai duas maes

Pela primeira vez, um tribunal canadiano reconheceu oficialmente, na terça-feira, que um menino de 5 anos pode ter um pai e duas mães – um casal de lésbicas.

No acórdão, o Tribunal de Recurso da Província de Ontário admitiu que as duas mulheres viviam numa união estável desde 1990 e que em 1999 tinham decidido fundar uma família, com a ajuda de um amigo que fora o dador de esperma.

Os juízes entenderam que a canadiana que vivia maritalmente com a mãe do menino devia também ser reconhecida como a mãe do menor e, portanto, como o terceiro elemento parental da criança.

Sustentaram também que a legislação local sobre a filiação, que tem 30 anos, estava ultrapassada e ia, na situação concreta, contra "o melhor interesse da criança".

Encontrei esta notícia no site da RTP. Só por si o título original, “Reconhecimento de ser mãe a duas lésbicas pode discriminar crianças”, é um mau exemplo dos valores jornalísticos que o serviço público de informação deve respeitar.
Além do título, as duas frases com que o artigo termina:

No Canadá, os casamentos entre casais homossexuais foram

autorizados em 2005.

Em Portugal, o matrimónio só é permitido entre cônjuges do

sexo oposto.

indicia uma tomada de posição  e um objectivo manipulador da opinião pública que não é aceitável no jornalismo de informação.
Nós iremos apresentar queixa ao provedor usando o link http://www.rtp.pt/wportal/grupo/provedor_telespectador/contactos.php.
Link da notícia http://tv1.rtp.pt/noticias/index.php?t=Reconhecimento-de-ser-mae-a-duas-lesbicas-pode-discriminar-criancas.rtp&article=133869&visual=3&layout=10&tm=7
Marcas Technorati: ,,,,

domingo, 24 de janeiro de 2010

Nepal protege direitos LGBT

■      Nirupa Rai (left) and Nirmala Lawati O Nepal irá ser o primeiro país asiático que protegidos os direitos das minorias sexuais na constituição.

De acordo com o Hindustan Times a nova versão da constituição está prevista para Maio e incluirá o direito à não descriminação baseada na orientação sexual. [ler + Nepal charter to grant gay rights- Hindustan Times]

Esperamos que o exemplo seja seguido por outro países que não volte a acontecer situações com a separação forçada de Nirupa Rai e Nirmala Lawati (na foto à direita). [ler +]

 

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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Casamento homossexual aprovado em Portugal

casmgayarp2 A proposta de Lei nº 7/XI, apresentada pelo governo, que permite o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo foi hoje, 8 de Janeiro de 2010, aprovada pelo parlamento português, com os votos a favor do PS, PCP e BE, sete abstenções do PSD, votos contra do CDS, PSD e dois deputados do PS. Aprovado o diploma vai baixar agora à comissão.

Apesar da  proposta de lei do Governo exclui a possibilidade de adopção por casais homossexuais, a votação na assembleia da republica que estabelece a igualdade no casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, é mais um passo importante no fim das descriminações impostas aos cidadãos portugueses com base na sua orientação sexual e uma boa forma de celebrar o 100º aniversário da Republica de Portugal.

As propostas do Bloco de Esquerda e do Partido Ecologista “Os Verdes” (PEV), que incluía a igualdade no acesso à adopção por casas homossexuais for rejeitada pelos votos da direita e do Partido Socialista.

Passo a passo se fazem as conquistas possíveis e hoje é um dia para celebrar.

Os meus agradecimentos a tod@s os activistas dos direitos humanos que ao longo de décadas dedicaram tanto da sua vida para que mais este passo a caminho da igualdade.

Comediante lésbica portuguesa protesta lançamento de livro anti-casamento homossexual

HMartins A orientação sexual não se escolhe, mas pode condicionar outras opções, como o casamento, defendeu a activista lésbica Helena Martins, que hoje protestou contra a data escolhida para lançamento do livro "Porque Não - Casamento Entre Pessoas do Mesmo Sexo".

O livro, escrito pelo juiz de Direito Pedro Vaz Patto e pelo sacerdote Gonçalo Portocarrero de Almada, foi apresentado hoje na livraria Alêtheia, em Lisboa, a dois dias de serem discutidas e votadas, na Assembleia da República, as propostas de Governo, PSD, BE e Partido Ecologista Os Verdes e também uma petição por um referendo sobre o casamento homossexual.

Segundo Helena Martins, fundadora da associação Lesbians Out Loud, que tentou, em vão, organizar uma manifestação para hoje, o protesto "nunca seria contra a publicação" da obra da Alêtheia, "pois as ideias devem ser debatidas", mas "contra a altura escolhida para o lançamento".

"É um facto que as editoras têm livros para vender e que o lançamento nesta semana faz todo o sentido em termos de marketing, mas os autores e a editora têm de ver que há pessoas que podem sair lesadas com este tipo de ideia", declarou a activista de 37 anos aos jornalistas, à margem da sessão.

Justificando a impossibilidade de concretizar a manifestação por ser "muito complicado pedir às pessoas que dêem a cara", Helena Martins - que assume a sua homossexualidade "na família e no trabalho" - afirmou que o que os autores do livro estão a fazer é "continuar a instigar à homofobia e à exclusão".

"Quero mostrar que, se me espetarem uma faca, eu sangro, se me magoarem, eu choro, e que tenho direito a viver a minha vida em pleno. Não o faço neste momento porque o facto de haver leis para uns e leis para outros ou a não inclusão, na lei, de todos, permite a discriminação", declarou.

"Onde fica a minha dignidade quando eu não posso assumir certos direitos com a pessoa com quem estou? Eu e a minha companheira preparamo-nos para viver juntas e temos a intenção de casar, se a lei for para a frente" e "mesmo que não quisesse casar, é importante ter liberdade de escolha", sublinhou.

Afirmando que "a orientação sexual não é uma questão de opção", pois se tivesse podido escolher era heterossexual, já que "tudo seria mais fácil", Helena Martins, directora de vendas web em Lisboa, contou aos jornalistas que viveu um período "muito tortuoso", durante dois anos, até assumir a sua homossexualidade.

A activista, que fundou a associação Lesbians Out Loud em Londres, onde viveu durante seis anos, e que é comediante lésbica (http://www.helenamartins.com) nos tempos livres, foi "completamente heterossexual até aos 18 anos" e "sonhava casar", não tendo podido ainda concretizar esse plano devido à sua homossexualidade.

Helena Martins considera ainda que "não compete à maioria referendar os direitos ou liberdades das minorias", pois "se assim tivesse sido sempre ao longo dos anos, hoje ainda teríamos muitas injustiças em todo o mundo".

Fonte: Lusa e Ionline

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Governo aprova amanhã casamento homossexual

casam lesbicas União entre pessoas do mesmo sexo na agenda do Conselho de Ministros de amanhã. Proposta de lei do Executivo centra-se no essencial  em três artigos do Código Civil: o que estabelece que o casamento é entre  pessoas de sexo diferente; o que declara a inexistência do casamento entre homossexuais; e o que confere direitos de adopção a pessoas casadas

O casamento entre pessoas do mesmo sexo vai amanhã a Conselho de Ministros. O tema consta da agenda ministerial e o objectivo passa por aprovar desde já a proposta de lei. O que só não sucederá se forem levantadas dúvidas quanto ao articulado proposto.

Ao que o DN apurou, o Governo prepara-se para viabilizar a união entre pessoas do mesmo sexo através da alteração a três artigos do Código Civil. A começar pelo inevitável 1577, que actualmente estabelece que o "casamento é um contrato celebrado entre duas pessoas de sexo diferente que pretendam constituir família mediante uma plena comunhão de vida". Além deste ponto, de onde desaparecerá a expressão "de sexo diferente", deverá ser revogada uma das alíneas do artigo 1628. Este ponto do Código Civil define várias situações em que um casamento é considerado "juridicamente inexistente", sendo que uma delas é precisamente a união "contraída por duas pessoas do mesmo sexo".

O articulado que irá amanhã a Conselho de Ministros deverá também propor alterações ao artigo 1979 do Código. Que, no número um da versão actual, estabelece que "podem adoptar plenamente duas pessoas casadas há mais de quatro anos e não separadas judicialmente de pessoas e bens ou de facto, se ambas tiverem mais de 25 anos".

Com a alteração a esta formulação, o Executivo pretende deixar expresso o impedimento de um casal do mesmo sexo poder adoptar uma criança. O primeiro-ministro, José Sócrates, já deixou claro que o compromisso eleitoral do PS se reporta apenas à legalização do casamento e não à possibilidade de adopção por casais do mesmo sexo.

Com a aprovação em Conselho de Ministros, a proposta de lei que acabará com a interdição ao casamento homossexual dará entrada na Assembleia da República a tempo de ser debatida antes da discussão do Orçamento do Estado, que entrará no Parlamento em meados de Janeiro.

A iniciativa do Governo tem aprovação garantida pelas bancadas à esquerda do hemiciclo. Já a direita promete contrapor à iniciativa do Executivo uma proposta para a criação da união civil registada, uma nova figura legal específica para as uniões homossexuais. Um cenário que já foi admitido pelo líder parlamentar do PSD, José Pedro Aguiar-Branco, mas também pela bancada dos democratas-cristãos, mas que contará com a oposição de socialistas, comunistas, bloquistas, e do PEV.

Recorde-se que estes dois últimos partidos avançaram na última legislatura com projectos de lei para a legalização do casamento homossexual, que foram então chumbados pelo PS, com o argumento de que o partido não tinha apresentado esse compromisso aos eleitores.

Mesmo com aprovação garantida no Parlamento, o diploma do Governo terá ainda de passar pela promulgação do Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva. Mas, mesmo em caso de eventual veto, os deputados poderão reaprovar o diploma por maioria simples, após o que o Presidente da República terá de aprovar a proposta.

Fonte: DN

O ataque ao casamento homossexual indicia uma fixação no sexo e no poder

Por Inês Pedrosa, @ Expresso


A converseta moralucha em torno do casamento dos homossexuais recorda-me aquele fulgurante poema de Sophia de Mello Breyner que começa assim: "As pessoas sensíveis não são capazes/ de matar galinhas/ porém são capazes/ de comer galinhas". Não se pode chamar debate ou discussão ao que é apenas um tricô de preconceitos, uma espiolhagem salivante sobre a vida íntima dos outros.

Os homossexuais têm o mesmíssimo direito ao casamento que todas as outras pessoas, porque o contrato de casamento não se estabelece a partir do tipo de práticas sexuais dos que o contraem. A 'ideia' de que o casamento tem por objectivo a procriação, como afirma a dra. Manuela Ferreira Leite, não é confirmada pela lei de nenhum país democrático, talvez porque nem sequer se lhe pode chamar 'ideia': não passa de um fogacho de autoritarismo deslocado. O casamento não é fácil - e toda a gente sabe que não é a procriação o que o sustenta. Demasiadas vezes, pelo contrário, a mimosa prole estoira com essa relação de carne e alma entre dois adultos. Há gente para tudo, mas, em geral, o sexo não suporta a transfiguração dos amantes em papá e mamã.

O casamento é uma decisão extraordinariamente séria. Os heterossexuais tendem a esquecê-lo, porque podem casar e descasar sempre que lhes apetecer. Desde que procriem, segundo os fanáticos da procriação, não há problema. Mas basta olharmos à nossa volta para verificarmos que é exactamente esse o problema: o frenesim da procriação atenta contra os direitos dos procriados, aqueles a que na adolescência passamos a tratar por malcriados. As novas gerações crescem num hipermercado de mães e pais que mudam de mês a mês como as promoções especiais. O mais elementar bom senso confirmará que uma criança adoptada por um casal homossexual estável terá muito mais hipóteses de desenvolver as suas capacidades do que uma outra - e são tantas, basta abrir as revistas ditas cor-de-rosa para o confirmar - que viva de 'tio' em 'tio', de madrasta em madrasta, até à perda de referências final.

O bom senso só não nos pode meter isto pelos olhos dentro porque, em Portugal, o cenário de um casal homossexual com filhos é inexistente. Por causa da moral de esquina, hipócrita, opressora, da maioria amorfa. O lado esquerdo dessa maioria diz coisas como: "Eu não tenho nada contra a adopção por homossexuais, mas o problema é que a criança vai ser discriminada na escola". Estes são os mesmos que há trinta anos diziam: "Eu não sou racista, mas não gostava que o meu filho casasse com uma negra porque as crianças seriam discriminadas na escola". Agora abanam a cabeça, enervados, e dizem: "Não, não é a mesma coisa: porque a criança necessita de um modelo masculino e de um modelo feminino". Que modelos são esses, nesta fase de mutação acelerada em que as mulheres ganham autoridade e os homens doçura? Que modelos eram esses - o pai que bebia e batia, a mãe que apanhava e chorava? O pai que mandava, a mãe que obedecia? O centro dessa maioria diz: "Não sou contra os casais homossexuais, arranjem-lhes leis que os protejam, mas não lhe chamem casamento". Estes estão imbuídos de uma noção de superioridade: chamem-lhe outra coisa, para não atingirem essa coisa sublime a que só nós, os que fazemos o sexo do qual podem

nascer bebés, temos direito. A direita dessa maioria diz simplesmente: "Vivam lá a vida deles, mas discretamente". Ou seja, às escondidas, como os senhores faziam filhos às criadas.

O mundo já caminhou o suficiente (no Ocidente, claro), para entender que as crianças precisam de adultos que as amem. Um homem e uma mulher. Ou só um homem. Ou só uma mulher - os filhos dos viúvos, como se criam sem o tal modelo outro? Ou dois homens. Ou duas mulheres. As crianças precisam de modelos de amor. O amor, qualquer amor, ilumina. Os que se amam devem ter o direito à partilha e à herança um do outro. Devem ter o direito a acompanhar-se na saúde e na doença, em casa e no hospital, até ao último suspiro. As pessoas que pretendem negar a outras pessoas o direito ao casamento, fundamentando essa recusa no tipo de práticas sexuais dos outros, estão certamente a precisar de tratamento psiquiátrico. Porque só pensam em sexo e em poder, e há outras coisas na vida, muito mais importantes. A começar pelo amor.

Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Dezembro de 2009 negritos da minha autoria. Aqui o divulgo por o achar delicioso…